segunda-feira, 29 de março de 2010

sofisma

"seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo", diriam muitos e, com seus imutáveis chavões, enfatizariam que "não há progresso sem mudança" ou que "só a mudança é constante".

pois bem, nada mais fácil de corroborar por nós, seres pragmáticos, incapazes de enxergar um palmo diante do nariz em um nível de abstração abaixo do que podemos ver, tocar, sentir. meu corpo muda, minha forma de pensar muda, minhas vontades, as coisas à minha volta, tudo muda: somos todos essa "metamorfose ambulante".

implícita nessa noção intuitiva está a idéia de uma grande descontinuidade de todas as coisas, é como se o Universo fosse um filme, com um certo número de quadros estáticos por unidade de tempo. é como se o Ser só existisse se pausássemos o filme ou tirássemos uma fotografia: a cada instante existe uma força mutante, a força mais forte do Universo, gerando o próximo quadro que, apesar de bem semelhante com o antecessor, nada guarda do passado além daquilo que permaneceu o mesmo. está subentendido nessa hipótese sobre a mudança que a todo momento existe um processo transformador atuando sobre tudo e então eu pergunto: não seria esse processo, na verdade, agregador?

quando eu era um feto, na época da minha infância ou há um segundo atrás eu, de fato, não era fisicamente o mesmo, não pensava do mesmo jeito e tampouco tinha as mesmas vontades. o que mudou? "eu", a resposta mais simples e preguiçosa possível gera a incrível contradição da falta de unicidade do Ser. mas então, o que mudou? a relação entre as coisas.

eu, você, o monitor para o qual está olhando e o sol somos todos a mesma coisa: Energia. essa Energia agrupa-se em diversos níveis de abstração para formar o que você vê: desde quarks e gluóns, passando por atómos, organismos e essas palavras, aparentemente desconexas, que você acaba de ler. a origem de tudo, o big bang, não é uma transformação das partículas fundamentais, mas sim a mudança de interação entre fragmentos infinitesimais: antes concentrados num conjunto infitamente denso, passaram a espalhar-se com a explosão.

eu não sou o mesmo de outrora porque estou vivendo, sentindo e descobrindo coisas a todo instante e, ao mesmo tempo, fazendo dezenas de milhões de associações entre os meus neurônios. essas associações potencialmente sempre existiram, os neurônios estavam sempre lá, prontos, esperando para serem ligados. a cada instante eu agrego coisas e, assim, amplio o meu leque de possibilidades dentro do que eu sempre fui, mas não sabia.

é exatamente isso que os mesmos muitos afirmam, contraditoriamente com a sua retórica, sem perceber ao falarem "eu sou o que escolhi ser". eles dizem que todas as possibilidades de associações estão abertas e que, dentre aquelas que já existem, nós escolhemos, a todo instante, quais devemos incorporar para construir o eu instantâneo, parte de um dos quadros estáticos do filme do Universo. nessa visão, no entanto, essa metáfora perde o sentido: eu não mudo a cada instante, apenas escolho potenciais maneiras de interagir com o Universo que estão implícitas em mim desde que fui concebido em um embrião. melhor ainda, essas escolhas estão subentendidas desde que os meus pais, os pais de meus pais, os pais de meus pais de meus pais foram concebidos: ela estão subentendidas desde que o Universo foi concebido.

acredita-se que as pessoas são resultado do seu DNA, um ácido desoxirribonucleico, e da sua interação com o meio. eu acredito que as pessoas, as coisas, tudo, são resultado do DNA do Universo, as partículas fundamentais de Energia, e da sua interação com o Meio.

esqueça a idéia de que você tem uma essência, uma personalidade: tudo é parte de um Todo, e tudo que você pensa que é, na verdade, é uma parte ínfima de escolhas dentro do que você está atualmente apto a ser e, ainda, uma parcela rídicula, absolutamente medíocre do que você realmente é. você pode fazer qualquer coisa, pensar de qualquer forma, possuir todas as sensações e, por fim, ignorar todos os níveis de abstrações para ser o que você, no fim das contas, é: Energia.

4 comentários:

  1. Nossa isso vai ser complicado, mas vamos lá.

    Primeira parte.

    Em determinado momento vc fala de descontinuidade, pois bem, Sakyamuni pregava que todos os objetos materiais só existem em estados transitórios. Exemplo: uma cadeira de madeira não é uma cadeira de madeira, mas está transitoriamente na forma de uma cadeira, antes disso possivelmente essa madeira já foi parte de uma árvore, no futuro, caso venha a ser queimada, se transformará em carvão. A própria árvore e o carvão também são apenas estados transitórios de matéria. Sendo assim,um objeto sujeito a constantes mutações não possui uma natureza que possa ser classificada como real ou permanente. Se não é real, então é apenas uma ilusão, semelhante a um sonho que vai se transfigurando a todo instante.

    Não apenas os objetos físicos e nosso próprio corpo são inconstantes, como também nossos sentimentos e pensamentos mudam com velocidade ainda maior e são igualmente ilusórios.

    Se vc quiser se aprofundar no conceito, eu sugiro que leia o texto do link abaixo, vc vai notar que é um ótimo ensinamento, caso saiba filtrar as informações, excluir as afetações religiosas e fazer as devidas conexões com a psicologia, a biologia e a física, será muito esclarecedor.

    http://www.nossacasa.net/shunya/?menu=120

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  2. Ozzie, ajudou muito sim, valeu!! o seu conhecimento sempre me impressiona!

    a Física Quântica tem uma outra implicação filosófica, acredito, interessantíssima. depois de Newton, boa parte dos cientistas passaram a acreditar que o universo é governo por lei naturais estritas que poderia ser descoberta e formalizadas através da observação e experimentação científica. essa posição é conhecida como determinismo. entretanto, o determinismo opõe-se a idéia de livre-arbítrio. isto é, se o universo, e logo o mundo inteiro, é governado por lei estritas e universais, então isso acarreta que o homem também é governado por leis naturais nas suas ações. reciprocamente, se supusermos que o homem tem livre-arbítrio, então temos que aceitar que o mundo não é totalmente governado por leis naturais, donde o campo de atuação da ciência seria limitado. entretanto, o desenvolvimento da Mecânica Quântica deu aos pensadores alternativas para essas possibilidades, pois ao propor um modelo de universo que segue regras gerais mas jamais tem um futuro pré-determinado, enfraqueceu as hipóteses por trás dessas idéias. essa não previsibilidade, consequência do princípio da incerteza de Heisenberg, foi demonstrada matematicamente: mesmo se tivéssemos instrumentos infinitamente precisos, não poderíamos saber a posição e a velocidade do eletron simultaneamente (logo, é impossível saber onde ele estará no próximo instante).

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  3. Bem Caio, creio que as coisas sejam mais complicadas...

    A física clássica, de Newton até Einstein, se baseia na premissa de um universo ordeiro e objetivo, universo que existe independentemente dos organismos que nele habitam. Neste modelo o homem é só mais uma "coisa" em meio à um mar de outras "coisas", sendo assim ele poderia lançar-se na análise e observação dos objetos ao redor sem interferir no mecanismo estudado.

    A física quântica mudou essa visão do universo, agora sabemos que na verdade não existe tal mecanismo objetivo e, em sua essência o universo é pura abstração. Mas, o mais impressionante foi saber que não existem "coisas" independentes umas das outras, um grão de areia se movendo nas praias do japão pode dar início ao evento que vai resultar em um furacão no norte dos USA. E, se todas as coisas estão "ligadas" e fazem parte do mesmo mecanismo, então é impossível para nós humanos observarmos e analisarmos o universo sem interferir no mesmo.

    Isso é mostrado não só por Heinsenberg como tb por Schödinger em sua experiência mental do gato. Inicialmente um elétron existe em um estado abstrato, ele não é uma partícula ainda, mas um pontêncial multiplo de possibilidades, ou seja, ele existe simultaneamente em várias posições no tempo/espaço. Quando fazemos a medição, o elétron é obrigado a se manifestar e escolher uma única posição tornando-se assim uma partícula objetiva, então pasmem, o observador é que condiciona a matéria!!!!!

    E invariavelmente, o elétron em questão irá se ajustar para corresponder precisamente com os parâmetros da medição. Mesmo que não se possa determinar com exatidão sua posição ou velocidade, o mais impressionante é que ele só passa a existir como uma partícula no momento em que é medido, antes disso ele se assemelha a uma onda de pontenciais.

    Se levarmos isso para a questão do livre-arbítrio, é como se houvesse um número infinito de possibilidades para a manifestação de um evento em particular, por ordem natural de tempo e espaço algumas dessas possibilidades se tornam impossíveis de serem vivenciadas por nós, assim sobram algumas centenas dentre as quais acabamos vivenciando (ou escolhendo viver) apenas uma em especial.

    Eu particularmente não acredito no livre-arbítrio por que percebo que existem muitas forças, psicológicas, culturais e até mesmo biológicas, agindo para que recriemos sempre as mesmas realidades dia após dia, sem que exista margem para a manifestação da verdadeira vontade.

    Valeu!

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  4. Já ouviu falar da Teoria de Caos Quântico de Albert Einstein?

    A fundação de todo o trabalho com partículas tem como base o estudo de sistema não-lineares. A princípio achava-se que o mundo sub-atomico correspondia a um sistema linear, mas logo de cara o comportamento estranho das partículas deixou evidente tratar-se de um sistema caótico, melhor compreendido e expressado através da matemática abstrata do que da matemática concreta.

    Abraços.

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