domingo, 28 de março de 2010

Artista tira terço do ânus

É isso mesmo que você leu. Sem trocadilho e sem segredos.


A performance realizada pelo artista Pedro Costa no 13º Salão de Artes Visuais de Natal no último dia 12 está causando muita polêmica. Não era pra menos. Como dito no título, na performance, ele ficou de quatro completamente pelado e tirou um terço do próprio cu. Como aconteceu com a Escadaria Para o Paraíso, choveram reclamações. Tá certo que agora até eu concordo que ele tava pedindo pra ser crucificado (entenderam?), mesmo apoiando a performance.

Eugênio Bezerra, assessor especial do gabinete da prefeita Micarla de Sousa, afirmou que “nenhum centavo dos cofres da prefeitura foi destinado ao artista”. Entretanto, a Revista Catorze consultou Sanzia Pinheiro, coordenadora do Núcleo de Artes Visuais da Funcarte e organizadora do Salão, que confirmou que o artista Pedro Costa inscreveu a performance de acordo com o regulamento do Salão e que portanto vai receber o prêmio de R$ 1.350,00 a que tem direito. “Não há nenhum erro na sua inscrição, ele vai receber o dinheiro devido”, disse.

A performance foi filmada e está em exibição na galeria Newton Navarro da Funcarte. O terço também está em exposição. A mostra fica aberta a visitação até 30 de abril.

Quer conferir a entrevista que ele deu para o site A Capa?


O vídeo já está no youtube?
Não, o vídeo não está na internet e nem tenho previsão de quando estará.

De onde surgiu a ideia da performance?
A ideia surgiu a partir de um show da Solange tô aberta! que foi realizada no "Dia do Índio" em Salvador. Eu comprei uns terços e, na hora do show, tirei um do meu ânus. Só que, no calor e na vibração do show, o trabalho se confundiu com as luzes, fumaça, figurino, música etc. Então pensei conceitualmente e refiz a performance de forma pontual, com a nudez e o ato em si. Percebi que era uma ação "simples" mas poderosa.

Que tipo de reações você recebeu e está recebendo?
Hoje [quinta-feira 18/03] dei uma entrevista para a televisão. O repórter vai entrevistar, também, um líder religioso (provavelmente um padre da igreja católica) e especialistas em arte contemporânea. Sei que há riscos de fortes reações. Leio na internet algumas coisas (opiniões de pessoas que leem as matérias) mas nada com um fundamento crítico para poder dialogar. Bem, entraram no meu orkut e mandaram eu enfiar um abacaxi e depois chupar... eu pensei, pensei... mas não posso roubar a ideia das pessoas (risos). Até pensei em enfiar um ananás que é mais grosso e mais doce (risos), mas desisti.

Como seus amigos e parentes enxergaram a performance?
Os amigos acharam-na muito forte, direta e objetiva. Entenderam a ação e admiraram a coragem e a ousadia. Ficaram muito felizes e, até hoje, estão em estado de êxtase com o trabalho. Os artistas daqui, que tem uma carreira na arte contemporânea, viram que a entrada e a realização dele no salão de Natal foi de extrema importância. Apesar de muitos salões e espaços terem o nome de "contemporâneo", quando você faz uma proposição como a minha, percebe-se que, no fundo, é só o nome. E com o conhecimento, experiência e sensibilidade dos curadores convidados foi possível realizá-la e a Funcarte, aqui em Natal, não a vetou. Meus parentes inicialmente ficaram preocupados com meu ânus (risos). Mas, agora, estão preocupados com alguma reação negativa que possa me atingir diretamente.

Desculpe a pergunta incômoda, mas como você fez pra enfiar o terço no ânus?
Fiz a xuca, passei KY, e fui enfiando devagar, como bolinhas tailandesas...

Há pessoas que não entendem de arte, mas quando veem um trabalho como o seu gostam de opinar e criticar. Por que isso acontece?
Acredito que seja porque cada pessoa tem a sua leitura de mundo e muitas delas se sentem instigadas a expressá-las. Isso acontece em relação a tudo. Mas o debate conceitual sobre a obra, no meu caso, existe mais comumente no meio de artistas e curadores.

No ano passado uma escritora fez uma peça com um Jesus transexual. Mais recentemente uma exposição na Espanha foi cancela porque lançava um olhar gay sobre Jesus. Por que parece haver uma fixação da arte contemporânea com as questões ligadas a religião?
No Brasil temos o caso da Márcia X que háa alguns anos, com a sua imagem do terço em forma de pênis, foi barrada no Centro Cultural do Banco do Brasil em Brasília. Isso foi ótimo no sentido da mobilização dos artistas a favor da exposição da obra e em todas as questões que nos fizeram pensar criticamente. Qualquer religião envolve tabus, interdições, crenças fortes sobre o que se pode e o que não se pode fazer. Há valores morais envolvidos e, mais ainda, ditaduras sobre corpo, sexo, comportamento. Geralmente a instituição religiosa se torna um impasse entre o desejo das pessoas e a ética que ela aplica. Nisso, resultam conflitos, desde os internos individuais até as guerras.

Então religião também é um tema político a ser trabalhado. E arte contemporânea possui essa característica de questionar as relações de poder e da privação da liberdade de escolha. É dessa forma que eu enxergo. Necessito citar dois ótimos artistas que, assim como eu, tiveram seus trabalhos sobre sexo e religião realizados. É o caso do documentário "Bombadeira" do diretor Luis Carlos de Alencar (BA) e do trabalho de Marcelo Gandhi com velas em forma de pênis e terços, que o registro fotográfico faz parte do "Acervo em Movimento", do Museu da Pinacoteca do Estado (RN). Ambos publicados com o apoio do Ministério da Cultura e outros órgãos importantes do país.

Você é religioso?
Sim. Sou espírita umbandista. Uma religião que nasceu no Brasil, com a influência direta da força indígena e da força africana e do kardecismo, e que não trabalha com a matança de animais. E também me considero pagão. Mas nada disso me impede de fazer ou ser nada.

Pra você qual é o papel da arte? Chocar, questionar, embelezar?
Fazer pensar sobre as questões atuais. Lógico que eu sou fruto de uma época e da minha história de vida. Mas, para mim, a arte tem que causar algo no corpo de quem vê e de quem realiza e, também, levar a uma confusão mental que leva a refletir. Arte é crítica, ou seja, põe em crise. Por isso artistas podem ser tão perigosos...


Obs.: Os negritos são por minha conta e risco.

7 comentários:

  1. por que isso aí é arte mesmo???

    ResponderExcluir
  2. Pois é, é arte mesmo não tendo cara de arte.

    ResponderExcluir
  3. ok, isso daí é putamente artístico

    ResponderExcluir
  4. Só pra provocar, o que é algo com cara de arte? Um texto bem escrito? Com palavras complicadas? Uma escultura bem trabalhada? Cores harmônicas? Harmonia musical? É só aquilo que é argadável?

    ResponderExcluir
  5. Acho que soa estranho chamar isso de arte, Will, nem é por não ser agradável, mas porque parece algo simplório demais. Passa a ideia de que tudo é arte. Eu acho que o sujeito respondeu bem o que é arte. Além de chocar, ele tem toda uma consciêcia artística. Meu palpite é de que essa é a diferença entre o que é arte e o que não é. O fato de ele saber o que é arte, saber provocar e ter todo um pensamento voltado para isso faz dele um artista.

    ResponderExcluir
  6. Dorgas, mano! riaiririairiairiai

    ResponderExcluir
  7. A função do artista é instigar,desconstruir, fazer refletir. Acho que o artista Pedro Costa atingiu o objetivo. Não importa o meio que ele utilizou, o que vale é o que ele está querendo questionar. Valeu! Outra coisinha importante para ser colocado aqui, o Solon Ribeiro entende de arte sim senhor. Agora esse negócio aí de religião, de dinheiro público, de coloca vaca sagrada aqui ou acolá, aí sim é babaquice, é puro preconceito, coisa de quem não quer pensar. O problema é que pra desconstruir, tem que sair da zona de conforto, aí o bicho pega! Risos...A galera fica incomodada. O processo é demorado mas vale esperar. Parabéns!

    ResponderExcluir