quarta-feira, 9 de junho de 2010

merda! sou lúcido

me disseram ontem que a frase

tudo o que eu mais amo e mais odeio em mim é ser dotado de razão 

de uma camisa minha, que eu mesmo escrevi, lembrava um poema do Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, especialmente a última estrofe. eis o poema:

"Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa 
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, 
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; 
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha 
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: 
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, 
E romantismo, sim, mas devagar...). 

Sinto uma simpatia por essa gente toda, 
Sobretudo quando não merece simpatia. 
Sim, eu sou também vadio e pedinte, 
E sou-o também por minha culpa. 
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: 
É estar ao lado da escala social, 
É não ser adaptável às normas da vida, 
As normas reais ou sentimentais da vida - 
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, 
Não ser pobre a valer, operário explorado, 
Não ser doente de uma doença incurável, 
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria, 
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas 
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas, 
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão! 
Tudo menos importar-se com a humanidade! 
Tudo menos ceder ao humanitarismo! 
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, 
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: 
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, 
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte. 

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki. 
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir. 
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente 
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. 

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, 
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. 

Coitado do Álvaro de Campos! 
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! 
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! 
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos, 
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, 
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão 

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! 
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! 

E, sim, coitado dele! 
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, 
Que são pedintes e pedem, 
Porque a alma humana é um abismo. 

Eu é que sei. Coitado dele! 
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma! 

Mas até nem parvo sou! 
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. 
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. 

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido! 

Já disse: sou lúcido. 
Nada de estéticas com coração: sou lúcido. 
Merda! Sou lúcido."

3 comentários:

  1. Belíssimo poema de Álvaro de Campos.

    Sabe, não sei se há alguém dotado de razão. Acho que a maior insensatez é acharmos que somos dotados de razão e lucidez.
    Eu acho que a razão é uma invenção altamente subjetiva e abstrata que parece servir só para moldar. Sempre acho interessante a frase "a razão está com fulano". A razão é uma criação, algo exterior e não inerente ao ser humano.
    E isso me faz pensar que a razão está com todo mundo e, ao mesmo tempo, com ninguém.
    É racional ter um emprego, mas parece ser bem mais racional não perder tempo trabalhando e juntando dinheiro. Fico pensando se somos de fato tão racionais assim ou se essa razão só é racional dentro de uma irracionalidade maior.

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  2. não, Will, escrevi só a frase.

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  3. E não agir de acordo com ela é a própria definição de loucura. Talvez agir de acordo com a razão seja tão ruim quanto agir contra ela, sabendo qual é a escolha racional. Daí a (gostosa) confusão.

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